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Violência contra a Mulher: informação, acolhimento e rede de proteção (Psicóloga Aline Castagnetti)

A violência contra a mulher é um problema social e de saúde pública que atravessa diferentes espaços e relações. Embora seja frequentemente associada ao ambiente doméstico e familiar, ela pode acontecer em diversos contextos, como no trabalho, nas instituições, nos espaços públicos, nas relações afetivas e também nos ambientes digitais.

Mais do que um problema individual, a violência contra a mulher está relacionada a relações históricas de desigualdade e poder entre homens e mulheres. Por isso, atualmente, utiliza-se também o conceito de violência de gênero, compreendendo que determinadas formas de violência são produzidas e sustentadas por desigualdades sociais, culturais e relacionais. Essa violência pode atingir mulheres independentemente de idade, classe social, raça, escolaridade, religião ou qualquer outra condição.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define violência como o uso intencional de força física ou de poder, real ou em ameaça, contra si próprio, outra pessoa, grupo ou comunidade, com possibilidade de resultar em lesão, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação. Essa definição amplia a compreensão do fenômeno, mostrando que violência não se resume à agressão física.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) reconhece diferentes formas de violência contra a mulher no contexto doméstico e familiar. Entre elas estão:

  • Violência física: ocorre quando uma ação provoca ou tenta provocar danos à integridade física ou à saúde da mulher, como empurrões, tapas, socos, chutes, queimaduras, estrangulamento ou utilização de objetos para causar lesões.
  • Violência psicológica: envolve comportamentos que provocam sofrimento emocional, medo, insegurança ou diminuição da autoestima. Pode aparecer por meio de ameaças, humilhações, constrangimentos, chantagens, controle, isolamento, manipulação, perseguição e desqualificação constante.
  • Violência sexual: ocorre quando a mulher é obrigada ou pressionada a participar de uma situação de natureza sexual sem consentimento, inclusive por meio de ameaça, intimidação, força, manipulação ou outras formas de coerção. Também inclui situações relacionadas ao controle da reprodução e da vida sexual da mulher.
  • Violência patrimonial: caracteriza-se pela retenção, destruição ou subtração de documentos, objetos pessoais, instrumentos de trabalho, bens, valores, recursos econômicos ou outros patrimônios da mulher. Muitas vezes, essa forma de violência é utilizada como mecanismo de controle e dependência.
  • Violência moral: envolve comportamentos que atingem a honra e a reputação da mulher, como calúnia, difamação e injúria.

É importante compreender que essas formas de violência não acontecem necessariamente de maneira isolada. Uma mesma mulher pode vivenciar diferentes tipos de violência simultaneamente, e situações inicialmente percebidas como "brigas de casal", "ciúmes" ou "problemas familiares" podem fazer parte de um contexto de controle e violência.

Outro aspecto importante é que nem sempre a mulher consegue reconhecer imediatamente que está vivendo uma situação de violência. O medo, a dependência financeira, a preocupação com os filhos, a vergonha, a culpa, o isolamento social, as ameaças e a esperança de que o comportamento do agressor mude podem dificultar a busca por ajuda.

Por isso, é fundamental substituir julgamentos por escuta, acolhimento e informação. Perguntas como "por que ela não foi embora?" ou "por que ela voltou?" podem aumentar a culpa e o isolamento. Em seu lugar, é mais adequado perguntar: "Como posso ajudar?", "Você se sente segura?" e "Você sabe que existem serviços que podem apoiá-la?"

Nesse contexto, a Psicologia possui um papel importante. O trabalho psicológico pode contribuir para o fortalecimento da autoestima, da autonomia, da percepção de direitos, da identificação de padrões de violência, da elaboração das consequências emocionais da experiência vivida e da construção de estratégias de proteção. O objetivo não é decidir pela mulher, mas oferecer condições para que ela possa compreender sua realidade, recuperar sua autonomia e tomar decisões de forma mais segura e consciente.

Entretanto, a atuação diante da violência contra a mulher não deve acontecer de maneira isolada. É fundamental a existência de uma rede de proteção articulada, envolvendo Psicologia, Serviço Social, saúde, assistência social, segurança pública, Defensoria Pública, Ministério Público, Poder Judiciário e serviços especializados de atendimento às mulheres.

Agosto Lilás: informação também é proteção

O Agosto Lilás é uma campanha de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher, realizada em referência à criação da Lei Maria da Penha, sancionada em 7 de agosto de 2006. Em 2026, a Lei Maria da Penha completa 20 anos, tornando este um momento especialmente importante para reforçar a informação sobre direitos, prevenção, acolhimento e acesso à rede de proteção. (Marília)

A campanha busca lembrar que combater a violência contra a mulher não é responsabilidade apenas da vítima. É uma responsabilidade de toda a sociedade. Familiares, amigos, profissionais, instituições, empresas, escolas e comunidades podem contribuir para identificar situações de violência, oferecer apoio e facilitar o acesso aos serviços de proteção.

Informação pode ser o primeiro passo para romper o silêncio. Acolhimento pode ser o primeiro passo para reconstruir a autonomia. E uma rede de proteção fortalecida pode salvar vidas.

Onde buscar ajuda

Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher
Serviço gratuito, disponível 24 horas por dia, todos os dias da semana. Oferece orientação sobre direitos, informações sobre serviços da rede de atendimento e recebe e encaminha denúncias. Também é possível entrar em contato pelo WhatsApp oficial (61) 9610-0180. (Serviços e Informações do Brasil)

Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180

Em situação de emergência: ligue 190 – Polícia Militar. O próprio Ministério das Mulheres orienta que o 190 seja acionado quando houver risco imediato. (Serviços e Informações do Brasil)

Rede de atendimento: o Ligue 180 também orienta sobre serviços como Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAM), Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referência, Defensoria Pública e Ministério Público. (Serviços e Informações do Brasil)

Para mulheres em Santa Catarina, também é importante conhecer iniciativas estaduais de enfrentamento, como o Ônibus Lilás, que oferece atendimento psicossocial, orientação jurídica, encaminhamentos para a rede de apoio e ações educativas em diferentes municípios. Em 2026, a iniciativa já havia atendido milhares de mulheres no estado. (SAS Goiás)

Falar sobre violência contra a mulher não significa falar apenas sobre agressões físicas. Significa falar sobre respeito, autonomia, segurança, dignidade e direitos.

Não se cale diante da violência. Informe-se. Acolha. Oriente. Procure ajuda.

Violência contra a mulher não é problema de casal. É uma questão de direitos humanos e responsabilidade de toda a sociedade.

Referências

BRASIL. Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006. Cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Brasília, DF: Presidência da República, 2006.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Relatório mundial sobre violência e saúde. Genebra: OMS, 2002.

SAFFIOTI, Heleieth I. B. Gênero, patriarcado, violência. 2. ed. São Paulo: Expressão Popular, 2015.

Querida ansiedade (Psicóloga Aline Castagnetti)

A ansiedade faz parte da experiência humana. Sentir preocupação diante de uma situação desconhecida, experimentar medo antes de um acontecimento importante ou ficar em estado de alerta diante de uma possível ameaça são respostas naturais do organismo. Em determinadas situações, a ansiedade pode inclusive ser adaptativa, ajudando a pessoa a se preparar, tomar decisões e responder diante de desafios.O problema surge quando a ansiedade deixa de ser uma resposta proporcional e passageira e passa a interferir de maneira significativa na vida cotidiana. Quando a preocupação, o medo ou a sensação de ameaça tornam-se persistentes, difíceis de controlar e começam a prejudicar os relacionamentos, o trabalho, os estudos, o sono ou outras atividades, é importante buscar avaliação profissional.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), os transtornos de ansiedade estão entre os transtornos mentais mais comuns e podem apresentar sintomas como medo ou preocupação excessiva, alterações comportamentais e diferentes manifestações físicas (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2023). Isso demonstra que ansiedade não é simplesmente "frescura", falta de força de vontade ou incapacidade de lidar com os problemas. Trata-se de uma experiência que envolve aspectos psicológicos, fisiológicos, comportamentais e sociais.

Ansiedade: quando ela deixa de ser uma resposta adaptativa?

A ansiedade possui uma função importante. Diante de uma situação percebida como ameaçadora, o organismo entra em estado de preparação para agir. O coração pode acelerar, a respiração mudar, os músculos ficarem mais tensionados e a atenção se voltar para aquilo que é percebido como perigo.

Essa resposta está relacionada ao funcionamento do sistema nervoso autônomo e aos mecanismos de defesa do organismo. Em situações de ameaça, o corpo pode apresentar respostas fisiológicas que favorecem a preparação para enfrentar ou evitar o perigo.

Portanto, sentir ansiedade não significa necessariamente estar diante de um transtorno.

A diferença está, principalmente, na intensidade, frequência, duração e impacto que os sintomas produzem na vida da pessoa.

Uma pessoa pode sentir ansiedade antes de uma prova, entrevista de emprego, apresentação ou decisão importante e, depois que a situação passa, retornar ao seu funcionamento habitual.

Por outro lado, quando a preocupação permanece mesmo na ausência de uma ameaça concreta, torna-se difícil controlar os pensamentos ou leva a pessoa a evitar situações importantes, pode ser necessário investigar a presença de um transtorno de ansiedade.

Como a ansiedade pode aparecer?

A ansiedade não se manifesta da mesma maneira para todas as pessoas. Algumas percebem principalmente os sintomas físicos; outras experimentam pensamentos acelerados, medo constante ou uma necessidade intensa de controlar tudo ao seu redor.

Entre as manifestações mais comuns podem estar:

  • preocupação excessiva;

  • pensamentos repetitivos sobre possíveis problemas;

  • sensação de que algo ruim irá acontecer;

  • dificuldade para relaxar;

  • irritabilidade;

  • inquietação;

  • dificuldade de concentração;

  • tensão muscular;

  • aceleração dos batimentos cardíacos;

  • falta de ar ou sensação de respiração alterada;

  • sudorese;

  • tremores;

  • desconforto gastrointestinal;

  • alterações no sono;

  • fadiga;

  • comportamentos de evitação.

É importante lembrar que a presença de alguns desses sintomas não significa, por si só, que uma pessoa tenha um transtorno de ansiedade. O diagnóstico deve ser realizado por profissional habilitado, considerando a história, o contexto e o funcionamento global do indivíduo.

Ansiedade e pensamentos

Um dos aspectos mais importantes para compreender a ansiedade está na relação entre pensamentos, emoções, sensações físicas e comportamentos.

Na perspectiva da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), pensamentos e interpretações influenciam a maneira como uma pessoa percebe determinada situação e responde emocionalmente a ela (BECK, 2022).

Imagine, por exemplo, que uma pessoa precise fazer uma apresentação.

Ela pode pensar:

"Vou esquecer tudo, todos vão perceber que sou incapaz e será um desastre."

Esse pensamento pode aumentar a sensação de ameaça, provocando ansiedade e sintomas físicos. Como consequência, a pessoa pode evitar a apresentação, pedir para outra pessoa substituí-la ou abandonar situações semelhantes no futuro.

O alívio provocado pela fuga pode ser imediato. Entretanto, a evitação pode ensinar ao cérebro que aquela situação realmente era perigosa, aumentando a probabilidade de ansiedade diante de situações semelhantes.

É por isso que, em muitos casos, evitar tudo aquilo que provoca ansiedade pode acabar fortalecendo a própria ansiedade.

O ciclo da ansiedade

Podemos compreender a ansiedade como um ciclo:

Situação → interpretação → ansiedade → sintomas físicos → comportamento de proteção/evitação → alívio momentâneo → manutenção da ansiedade.

Esse ciclo não significa que a pessoa esteja escolhendo conscientemente sentir ansiedade.

Ao contrário: muitos comportamentos são respostas automáticas desenvolvidas na tentativa de diminuir o desconforto.

Uma pessoa que verifica repetidamente se fechou a porta, por exemplo, pode sentir uma redução momentânea da ansiedade depois da verificação. Entretanto, se essa estratégia se torna repetitiva e necessária para obter tranquilidade, pode acabar mantendo o problema.

Da mesma maneira, uma pessoa que evita falar em público pode sentir alívio quando consegue escapar da situação. Porém, a ausência de novas experiências pode impedir que ela descubra que talvez fosse capaz de enfrentar aquela situação.

Preocupação: pensar muito não é necessariamente resolver

A preocupação é uma experiência comum na ansiedade.

Pensar sobre um problema pode ser útil quando conduz à elaboração de soluções. Porém, existe uma diferença entre planejamento e ruminação ou preocupação excessiva.

Planejar envolve perguntas como:

"O que posso fazer diante dessa situação?"

A preocupação excessiva tende a permanecer em perguntas como:

"E se acontecer alguma coisa?"

"E se eu não conseguir?"

"E se tudo der errado?"

"E se eu tomar a decisão errada?"

Nesse contexto, a mente pode permanecer tentando encontrar uma certeza que simplesmente não existe.

Uma das dificuldades presentes na ansiedade é justamente a tentativa de eliminar completamente a incerteza. Entretanto, viver envolve inevitavelmente algum grau de imprevisibilidade.

O trabalho psicológico pode ajudar a pessoa não apenas a diminuir a ansiedade, mas também a desenvolver uma relação mais flexível com a incerteza.

Ansiedade e necessidade de controle

Muitas pessoas ansiosas tentam controlar excessivamente aquilo que sentem, pensam ou fazem.

Podem buscar garantias constantes, revisar decisões inúmeras vezes, antecipar problemas, pesquisar excessivamente, pedir repetidamente a opinião de outras pessoas ou evitar qualquer situação que envolva possibilidade de erro.

Embora essas estratégias possam produzir uma sensação temporária de segurança, elas também podem aumentar a dependência do controle.

Aprender a lidar com a ansiedade não significa perder o controle da própria vida.

Significa compreender que nem tudo precisa ser controlado para que seja possível seguir em frente.

Quando procurar ajuda?

Buscar ajuda profissional é importante quando a ansiedade:

  • interfere no trabalho ou nos estudos;

  • prejudica relacionamentos;

  • provoca sofrimento significativo;

  • interfere no sono;

  • leva à evitação de situações importantes;

  • causa crises recorrentes;

  • ocupa grande parte do dia;

  • dificulta a tomada de decisões;

  • reduz a qualidade de vida;

  • ou faz com que a pessoa sinta que não consegue mais lidar sozinha com aquilo que está vivendo.

Também é importante procurar avaliação quando os sintomas físicos são novos, intensos ou diferentes do habitual. Sintomas como dor no peito, falta de ar, tontura ou palpitações podem ocorrer em situações de ansiedade, mas também podem estar relacionados a condições médicas que precisam ser avaliadas.

Por isso, não devemos atribuir automaticamente todo sintoma físico à ansiedade.

Ansiedade não é fraqueza

Existe ainda um importante estigma relacionado à saúde mental.

Frases como:

"É só pensar positivo."

"Você precisa ser mais forte."

"Pare de pensar nisso."

"Todo mundo tem problemas."

podem parecer simples, mas frequentemente não ajudam.

A ansiedade não desaparece simplesmente porque alguém decidiu "não pensar mais".

O sofrimento psicológico merece ser levado a sério, assim como qualquer outra questão relacionada à saúde.

Ao mesmo tempo, reconhecer a ansiedade não significa assumir uma posição de impotência diante dela.

Existem tratamentos eficazes e diferentes possibilidades de cuidado.

Como a Psicologia pode ajudar?

A psicoterapia pode contribuir para que a pessoa compreenda os fatores envolvidos na manutenção da ansiedade e desenvolva estratégias mais adaptativas para lidar com pensamentos, emoções, sensações físicas e comportamentos.

Em alguns casos, o tratamento pode envolver também avaliação médica e utilização de medicamentos. Quando indicados, os medicamentos devem ser prescritos e acompanhados por profissional habilitado, especialmente porque diferentes transtornos e condições podem apresentar sintomas semelhantes.

O que podemos fazer no dia a dia?

Algumas estratégias podem contribuir para o cuidado com a saúde mental:

Observar os pensamentos: identificar quais pensamentos aparecem nos momentos de maior ansiedade pode ajudar a compreender padrões.

Reconhecer os sinais do corpo: perceber tensão muscular, alterações respiratórias, aceleração cardíaca ou inquietação pode ajudar a identificar precocemente o aumento da ansiedade.

Cuidar do sono: manter uma rotina de sono adequada é importante para a regulação emocional e para o funcionamento cognitivo.

Praticar atividade física: a atividade física regular está associada a benefícios para a saúde física e mental e pode contribuir para a redução de sintomas de ansiedade.

Reduzir o excesso de estimulantes: algumas pessoas podem perceber aumento dos sintomas de ansiedade com consumo excessivo de cafeína e outras substâncias estimulantes.

Evitar o isolamento: manter relações sociais e uma rede de apoio pode ser importante para a saúde mental.

Aprender a tolerar pequenas doses de desconforto: nem toda ansiedade precisa ser imediatamente eliminada. Em muitos casos, aprender que é possível sentir desconforto e continuar realizando uma atividade importante faz parte do processo terapêutico.

Buscar ajuda profissional: quando a ansiedade começa a limitar a vida, procurar avaliação psicológica e/ou médica é um ato de cuidado, não de fraqueza.

Ansiedade na sociedade contemporânea

Vivemos em uma sociedade marcada por grande quantidade de informações, conectividade permanente, pressão por produtividade, comparação social e necessidade de respostas rápidas.

As redes sociais podem ampliar possibilidades de comunicação e informação, mas também podem favorecer comparação constante, exposição excessiva a notícias, busca por validação e dificuldade de estabelecer limites.

Entretanto, é importante evitar explicações simplistas que atribuam a ansiedade exclusivamente à "vida moderna". Os transtornos de ansiedade são fenômenos complexos, influenciados por diferentes fatores biológicos, psicológicos, sociais e ambientais.

Compreender essa complexidade é fundamental para evitar tanto a banalização quanto a patologização de experiências humanas comuns.

Considerações finais

Sentir ansiedade faz parte da vida.

O problema não está necessariamente em sentir medo, preocupação ou insegurança. O sofrimento pode surgir quando essas experiências passam a ocupar espaço excessivo e começam a determinar aquilo que fazemos, evitamos ou deixamos de viver.

Cuidar da ansiedade não significa eliminar todas as preocupações ou alcançar um estado permanente de tranquilidade.

Significa aprender a reconhecer o que está acontecendo, compreender os próprios padrões, desenvolver recursos de enfrentamento e construir uma relação mais flexível com pensamentos, emoções e incertezas.

Você não precisa esperar a ansiedade controlar sua vida para procurar ajuda.

Cuidar da saúde mental também é uma forma de prevenção.

Ansiedade não é fraqueza. Pedir ajuda também não.

Referências

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5-TR. 5. ed., text revision. Washington, DC: American Psychiatric Association Publishing, 2022.

BECK, Judith S. Cognitive behavior therapy: basics and beyond. 3. ed. New York: Guilford Press, 2022.

BEESDO, Katja; KESTERSON, Anke; KNAPP, Michael. Anxiety disorders in children and adolescents. Lancet, v. 361, p. 1284-1290, 2003.

CLARK, David A.; BECK, Aaron T. Cognitive therapy of anxiety disorders: a practice manual and conceptual guide. New York: Guilford Press, 2010.

HOFMANN, Stefan G.; ASNAANI, Anu; VONK, Imke J. J.; SAWYER, Alice T.; FANG, Anu. The efficacy of cognitive behavioral therapy: a review of meta-analyses. Cognitive Therapy and Research, v. 36, p. 427-440, 2012. DOI: 10.1007/s10608-012-9476-1.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Generalised anxiety disorder and panic disorder in adults: management. London: NICE, 2020. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/cg113. Acesso em: 16 ago. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Acesso em: 16 ago. 2026.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Anxiety disorders. Geneva: World Health Organization, 2023. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/anxiety-disorders. Acesso em: 16 ago. 2026.

Neuromodulação e Psicoterapia: quando tecnologia e cuidado psicológico se integram (Psicóloga Aline Castagnetti)

A compreensão contemporânea da saúde mental tem avançado para além de modelos que buscam explicar o sofrimento psicológico a partir de uma única perspectiva. Emoções, pensamentos, comportamentos, relações, experiências de vida e funcionamento cerebral estão continuamente interligados.

Nesse contexto, diferentes estratégias terapêuticas vêm sendo estudadas e utilizadas de maneira complementar. Entre elas estão a psicoterapia e as técnicas de neuromodulação, que podem contribuir, por diferentes caminhos, para o cuidado em saúde mental. A integração entre essas abordagens parte de uma compreensão importante: o cérebro participa da experiência psicológica, mas a pessoa não pode ser reduzida ao funcionamento do cérebro.

Pensamentos, emoções, comportamentos e experiências relacionais influenciam o funcionamento cerebral, enquanto alterações no funcionamento neural podem repercutir sobre atenção, memória, regulação emocional, sono, motivação e comportamento. Trata-se, portanto, de uma relação dinâmica e bidirecional.

Neuromodulação é um termo amplo utilizado para descrever intervenções capazes de modificar, modular ou influenciar a atividade do sistema nervoso por diferentes mecanismos. Existem diferentes modalidades de neuromodulação. Entre as técnicas não invasivas estudadas na área da saúde estão a estimulação magnética transcraniana (TMS/rTMS), a estimulação transcraniana por corrente contínua (tDCS) e outras formas de intervenção que buscam modificar padrões de atividade neural.

Também existem abordagens baseadas em biofeedback e neurofeedback, nas quais informações relacionadas ao funcionamento fisiológico ou à atividade cerebral são apresentadas ao indivíduo para favorecer processos de autorregulação.

A psicoterapia atua sobre diferentes dimensões da experiência humana. Na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por exemplo, o tratamento pode envolver a identificação de pensamentos automáticos, desenvolvimento de estratégias de enfrentamento, modificação de padrões comportamentais, exposição a situações evitadas, resolução de problemas e desenvolvimento de habilidades de regulação emocional (BECK, 2022).

Outras abordagens psicoterápicas também trabalham diferentes aspectos do funcionamento psicológico, incluindo emoções, relações interpessoais, esquemas, padrões comportamentais, experiências de vida e significado atribuído às experiências. Assim, enquanto determinadas técnicas de neuromodulação procuram modular aspectos do funcionamento neural, a psicoterapia trabalha diretamente com a experiência psicológica, os comportamentos, os pensamentos, as emoções e o contexto de vida da pessoa.

Essas perspectivas não precisam ser vistas como concorrentes. Podem ser compreendidas como diferentes possibilidades de intervenção sobre diferentes dimensões de um mesmo indivíduo. O cérebro não existe separado da experiência. Durante muito tempo, alguns discursos sobre saúde mental oscilaram entre duas explicações aparentemente opostas. De um lado, problemas psicológicos eram explicados quase exclusivamente pela história de vida ou pelas experiências emocionais. De outro, determinados sofrimentos passaram a ser apresentados exclusivamente como consequência de alterações cerebrais.

A ciência contemporânea aponta para uma compreensão muito mais complexa. O cérebro é plástico e modifica-se em resposta às experiências. Aprendizagem, comportamento, ambiente, relações sociais, estresse e intervenções terapêuticas podem estar associados a mudanças na atividade e na organização funcional do cérebro. A chamada neuroplasticidade refere-se justamente à capacidade do sistema nervoso de modificar sua estrutura e seu funcionamento em resposta a experiências e aprendizagem (KOLB; GIBB, 2011).

Isso ajuda a compreender por que psicoterapia e intervenções que atuam sobre o sistema nervoso podem ser estudadas dentro de uma perspectiva integrativa. Psicoterapia também envolve o cérebro. É importante destacar que a psicoterapia não é uma intervenção "sem relação com o cérebro".

Toda aprendizagem envolve processos neurais. Quando uma pessoa aprende uma nova maneira de interpretar determinada situação, desenvolve uma habilidade de regulação emocional, enfrenta gradualmente algo que antes evitava ou modifica um padrão comportamental, processos de aprendizagem e adaptação neural estão envolvidos. Pesquisas utilizando técnicas de neuroimagem indicam que diferentes intervenções psicoterápicas podem estar associadas a mudanças na atividade cerebral em pessoas com transtornos psiquiátricos (LINDEN, 2006).

Isso não significa que a psicoterapia deva ser reduzida a uma intervenção cerebral. Significa que mudanças psicológicas e mudanças neurais podem fazer parte de um mesmo processo de transformação.

A proposta de integração não deve ser entendida como uma fórmula em que uma técnica "corrige o cérebro" enquanto a psicoterapia "corrige os pensamentos". Essa visão seria excessivamente simplista. Uma abordagem integrativa busca compreender quais necessidades o paciente apresenta e quais estratégias podem ser mais adequadas para aquele momento do tratamento. Em determinados casos, uma intervenção de neuromodulação pode ser considerada como parte de um plano terapêutico mais amplo, enquanto a psicoterapia trabalha os fatores cognitivos, emocionais, comportamentais e relacionais associados ao sofrimento.

A combinação pode ser especialmente interessante quando existe uma indicação clínica bem estabelecida para determinada técnica e quando o tratamento é planejado de forma individualizada. Entretanto, integração não significa necessariamente realizar as duas intervenções simultaneamente ou para todos os pacientes. A indicação deve considerar avaliação clínica, diagnóstico ou hipótese diagnóstica, histórico, objetivos terapêuticos, contraindicações, evidências científicas disponíveis e acompanhamento da resposta ao tratamento.

Neurofeedback e psicoterapia

No neurofeedback, informações relacionadas à atividade cerebral são utilizadas como sinal de feedback para que o indivíduo possa aprender processos de autorregulação. A ideia central é favorecer aprendizagem sobre determinados padrões fisiológicos, dentro de protocolos específicos. A literatura científica sobre neurofeedback apresenta resultados promissores em algumas condições, mas também mostra heterogeneidade metodológica e necessidade de maior padronização em determinadas áreas. Por isso, é importante evitar promessas generalizadas de eficácia.

No contexto de uma abordagem integrada, o neurofeedback pode ser compreendido como uma ferramenta que pode ser utilizada em conjunto com intervenções psicológicas, quando houver indicação e objetivos clínicos claros. A psicoterapia, por sua vez, pode ajudar o paciente a compreender os padrões emocionais e comportamentais relacionados às dificuldades apresentadas, além de desenvolver estratégias para aplicar, no cotidiano, habilidades aprendidas durante o tratamento.

Uma proposta integrada pode ter diferentes objetivos, dependendo da necessidade de cada pessoa.

Entre eles:

  • favorecer processos de autorregulação;
  • trabalhar dificuldades de atenção e controle inibitório quando clinicamente indicadas;
  • desenvolver estratégias de regulação emocional;
  • reduzir padrões de evitação;
  • trabalhar pensamentos disfuncionais;
  • desenvolver habilidades comportamentais;
  • melhorar a percepção e o reconhecimento dos próprios estados internos;
  • favorecer aprendizagem de novas estratégias de enfrentamento;
  • acompanhar mudanças clínicas de maneira sistemática;
  • ampliar a compreensão individual sobre os fatores relacionados ao sofrimento.

O foco, portanto, não deve ser a tecnologia em si. O foco continua sendo a pessoa. 

Uma integração responsável começa antes da aplicação de qualquer técnica. É necessário compreender quem é o paciente, quais são suas principais dificuldades, como essas dificuldades começaram, quais fatores podem estar mantendo o problema e quais recursos pessoais e ambientais estão disponíveis. A avaliação pode envolver entrevista clínica, instrumentos psicológicos quando indicados, observação comportamental, análise funcional e, conforme a situação, avaliação médica ou neuropsicológica. Quando uma técnica de neuromodulação é considerada, também é necessário verificar sua indicação, possíveis contraindicações, riscos e evidências disponíveis.

Essa etapa evita que a tecnologia seja utilizada de maneira indiscriminada. Nem todo paciente precisa de neuromodulação. Da mesma forma, nem todo paciente terá a mesma resposta a uma determinada técnica.

Um dos riscos de uma abordagem excessivamente tecnológica é transformar o tratamento em uma sequência de procedimentos e indicadores. A saúde mental, entretanto, envolve uma pessoa inserida em uma história, em relacionamentos e em um contexto social.

O vínculo terapêutico continua sendo um componente importante do processo psicoterápico. A relação entre profissional e paciente oferece espaço para escuta, reflexão, experimentação e construção de novas formas de compreender e enfrentar as dificuldades. Nesse sentido, equipamentos e tecnologias devem estar a serviço do cuidado, e não substituir a relação humana.

Integrar psicoterapia e neuromodulação não significa escolher entre cérebro e mente. Significa reconhecer que mente, cérebro, corpo, comportamento e contexto estão relacionados. Uma pessoa com ansiedade, por exemplo, pode apresentar padrões de pensamento catastrófico, comportamentos de evitação, alterações fisiológicas e dificuldades de regulação emocional. O tratamento pode precisar considerar essas diferentes dimensões.

A integração entre Psicologia, Neurociência e tecnologia representa uma área promissora de desenvolvimento científico e clínico. Novas pesquisas vêm investigando como intervenções psicológicas, farmacológicas e neuromodulatórias podem interagir e quais pacientes podem se beneficiar de diferentes combinações terapêuticas. O futuro provavelmente não estará em substituir uma abordagem por outra, mas em desenvolver modelos de cuidado cada vez mais personalizados, seguros e baseados em evidências.

Nesse cenário, a tecnologia pode oferecer novas ferramentas. A neurociência pode ampliar nossa compreensão. A avaliação pode aumentar a precisão. E a psicoterapia pode continuar oferecendo aquilo que nenhuma tecnologia substitui: um espaço humano para compreender a própria história, desenvolver novas possibilidades e construir mudanças significativas.

Quando existe indicação clínica, conhecimento técnico e acompanhamento adequado, diferentes estratégias podem fazer parte de um plano terapêutico integrado. Mas a tecnologia não deve ocupar o lugar do cuidado. O cérebro importa. A história importa. O comportamento importa. As relações importam. E, acima de tudo, a pessoa importa. Uma abordagem verdadeiramente integral não busca apenas modificar sintomas. Busca compreender o indivíduo em sua complexidade e ajudá-lo a construir um funcionamento mais saudável, autônomo e sustentável.

.Referências

BECK, Judith S. Cognitive behavior therapy: basics and beyond. 3. ed. New York: Guilford Press, 2022.

FREGNI, Felipe et al. Evidence-based guidelines and secondary meta-analysis for the use of transcranial direct current stimulation in neurological and psychiatric disorders. International Journal of Neuropsychopharmacology, v. 24, n. 4, p. 256-313, 2021. DOI: 10.1093/ijnp/pyaa051.

KOLB, Bryan; GIBB, Robbin. Brain plasticity and behaviour in the developing brain. Journal of the Canadian Academy of Child and Adolescent Psychiatry, v. 20, n. 4, p. 265-276, 2011.

LINDEN, David E. J. How psychotherapy changes the brain: the contribution of functional neuroimaging. Molecular Psychiatry, v. 11, p. 528-538, 2006. DOI: 10.1038/sj.mp.4001816.

MICHIELSEN, H. J. et al. Neurofeedback and its clinical applications: a systematic review. Clinical Neurophysiology, diferentes edições e protocolos de aplicação.

NATIONAL INSTITUTE FOR HEALTH AND CARE EXCELLENCE. Depression in adults: treatment and management. London: NICE, 2022. Disponível em: https://www.nice.org.uk/guidance/ng222. Acesso em: 16 ago. 2026.

PERERA, Tharanga et al. The Clinical TMS Society consensus review and treatment recommendations for TMS therapy for major depressive disorder. Brain Stimulation, v. 9, n. 3, p. 336-346, 2016. DOI: 10.1016/j.brs.2016.03.008.

THIBAUT, Alexandra et al. Clinical guidelines for the use of transcranial direct current stimulation in neurological and psychiatric disorders. Clinical Neurophysiology, v. 129, n. 12, p. 2534-2547, 2018.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. World mental health report: transforming mental health for all. Geneva: World Health Organization, 2022. Disponível em: https://www.who.int/publications/i/item/9789240049338. Acesso em: 16 ago. 2026.

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